o que é preciso pra sentir um arrepio?
o que acontece com os rostos mascarados nos quais o sol não toca?
que já quase se fundiram àqueles olhos dispersos
tão
vazios.
o que eles procuram?
poesia? revolta? espelhos?
eu procuro outros olhos
não apenas um olhar, não procuro plateia
procuro olhos, que esbanjem desejos e feridas, alegrias e rancores
olhos falantes, olhos sedentos
não os olhos vidrados, robóticos, dissimulados de quem discursa
mas os olhos vívidos, pulsantes, amantes, de quem chora
chora porque sente
sente porque ama
ama porque vive,
não reproduz.
atravesso a cidade, caminho pelas ruas, e não encontro olhos!,
apenas os vítreos, quebradiços, inexpressivos.
traço o olhar de um rapaz
que tem os olhos de boneca de porcelana
há muito esquecida pelo dono
que provavelmente a substituiu por uma de plástico.
a boneca não tem humor
tem apenas a pele alva empoeirada,
uma roupa romântica perdida no tempo
e o rosto vazio de vida.
e eu vejo todos esses sorrisos
os risos do sem graça
e os olhares que não se cruzam
e me lembro da boneca abandonada
tem uma poesia morta no meio desta sala
e todos continuam seus inexpressivos e cordiais sorrisos.
eu não pretendo ser uma peça desse jogo
o peão que vai servir a um bando de autoritários querendo se afirmar
querendo acreditar que são algo
através dessa imposição.
eles se contorcem, brigam por atenção, por reconhecimento
e tudo que eu vejo é a boneca
morta
gritando em silêncio.
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