Eu poderia chorar pelas crianças que morrem a cada instante, de fome, frio, doenças, maus tratos.
Pelas injustiças, violências, crueldades. Pela miséria.
Gritar o quanto o mundo é cruel, questionar o valor da vida, ou o seu porquê.
Mas não é isso que me aflige neste momento. Não liguei esta máquina para declamar um manifesto pessimista, sangrento e dramático.
Estou aqui para expressar a prostração causada a mim pela Reforma Ortográfica no Português. E a minha reclamação é apenas uma. Apenas uma palavra.
Ideia.
Por quê?! Por quê, acento, por que você teve de ir?
Toda vez que me deparo com esta tão querida palavra e sinto aquele vazio sobre a letra e...algo em mim se despedaça.
O acento da ideia é o que a fazia crescer, parecia até se tornar uma palavra maior, mais expressiva.
Parecia mais brilhante, como a luz que se acende nos desenhos animados, plim!, ideia.
Abria assim a possibilidade de se tornar real, de sair das letras e se tornar ideia de fato. Como um Pinóquio a um passo de ser menino.
E não havia como não nutrir um carinho especial por tal palavra, afinal, nós vivemos de ideias.
Alguns se alimentam de ideias. Outros as vendem, até pechincham. Há quem as procure infinitamente, cada qual com seu método, uns mais outros menos saudáveis.
As ideias andam de braços dados com as inspirações, muitas vezes frutificando nas mais belas e criativas criações, apesar de algumas serem, infelizmente, inférteis.
Mas sempre foi um universo à parte, o conhecido Mundo das Ideias.
E agora, o acento, a escadinha que permitia o acesso a esse lugar, foi retirada do leitor e do escritor.
Nossa ideia perdeu o acento e a agudez.
Perdeu a plateia.
E agora?
A ideia perdeu seu charme, e ninguém mais se recordará dela como aquela palavra brilhante, ela ficará esquecida como algo envelhecido na lista dos ditongos que perderam a acentuação.
Ultrapassada, a ideia se esconde onde a originalidade já estava a algum tempo.
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Pode parecer bobo, mas eu realmente sinto falta de acentuar a ideia.
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