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domingo, 29 de janeiro de 2012

Bonjour

Abro as janelas, prédios, prédios.
Por que será que às vezes sinto que sou a única no mundo a abrir a janela? Vizinhos idiotas. Mas gosto mesmo é de ver as nuvens, não suas caras amargas dando "bom dia" sem vontade. Sinto o vento me saudar e agradeço mentalmente.
Visto as roupas, a jaqueta, calças hoje? Oh, não, tudo menos isso, preciso de liberdade-pernal! Jogo tudo pro lado, especificamente no querido cantinho do horror. Vestido velho da feira, os tolos acham que é chique pois coloco aquela jaqueta que ninguém quis e ficou pra mim e uma droga de saltos, e tenho aquela cabeleira estranha que por motivos misteriosos eles acham chiquérrimo. Como se isso realmente importasse, são só cabelos, oras.
Chiquérrimo é o mexidão que vou preparar quando chegar em casa, hm, que fome, que fome. Divino!

Saboroso é acordar inexplicavelmente de bom humor.


-Bom dia!
Eu digo e não ouço resposta. Bulhufas, bom dia a mim, bom dia a você, inseto pisado.
Cidade, eu ando, caminho, eu penso e olho os parvos a marchar. 
Sorrisos felizes? Quando é que eles são? Nem todo sorriso é alegre, nem toda pergunta traz respostas (eu diria quase nunca mas vou prosseguir em minha sequência pseudo-poética), nem todo gato nasce livre. 
Ou pobre. 
Cantarolo.
- Nós gatos já nascemos po-o-bres. Poorém, já nascemos li-i-vres. Senhor, senhora, senhorio!
Como adoro cantar! 
Mas o compromisso me impede.
- Bom dia, Will!
- Bom dia, madame.
Oh, ainda vai descobrir que não sou madame, pobre condenado à servidão e à adulação (não somos todos? alguém perguntaria e eu diria: não). Mas eu é que não irei contar, me flagrará algum dia de madrugada andando de pijamas, chinelos e meias coloridas(com um furinho ao fundo), indo entregar algum filme infantil na locadora, Disney, talvez? Entregando o Corcunda e cantando à Mulan. 
"Vou casar com Kokoan ou devo então casar com quem?" Ah, Pocahontas, não case, querida! Muito menos com Kokoan, venha colorir o vento comigo, vamos!  
Pijamas surrados, não aqueles sensuais, rendinha, furinho aqui e ali, para dedinhos entrarem - ou quem sabe rasgarem? Nada disso. Pijama dos bons, grande, macio e confortável, que dá pra colocar as pernas dentro da blusa quando dá vontade de encolher. Que nem coração de gente que ama demais. 
Volto a pensar nos gatos, gatos de rua, gatos de cama, gatos e gatos, gatos de gente. Como podem ser livres, queridos? 
Gatos deveriam ter asas.
Imaginando feliz belos gatos erguendo vôo, escuto a  voz cavalheira a me relembrar da realidade.
- Aceita um café, mon’amour? - me olha com olhos de quem já muito olhou daquela maneira (e provavelmente estava cansando-se disso) e os volta para o garçom – A conta é minha hoje, não a deixe tocá-la.  – e deu uma piscadinha.
Ao menos ele me conhecia nessa parte, cavalheirismos pra cima de mim costumam não cair bem, assim como tomar leite de manhã: às vezes causa enjôo. E ainda me vem em francês, não quero seu francês, me fale de gregos e japoneses, me mostre o que os tibetanos estão fazendo agora, mon’bijou. Ficaria agradecida, pouparia-me de um turbilhão de pensamentos altamente ofensivos sobre a vossa pessoa. Arigato gozaimashta.
- E então, so-
- Me diga uma coisa, querido. – o interrompo - Se os pézinhos da Cinderela crescerem enquanto o príncipe experimenta os de todas as outras damas da cidade, o que acontece?
- Ele nunca descobrirá que era ela a pessoa por quem se apaixonou. – ele era rápido, ao menos quando pressionado.
- Não, meu bem. Paixão, você diz? - ergo as sobrancelhas desafiadoramente para o pacotinho de açúcar que  abria - Ah, me deleito com a inocência de pessoas como você! Se ela fosse líquida gostaria de derramá-la sobre uma banheira e afogar-me nela. – sorrio e recebo o copo de café. Odeio café, coisa amarga que umas pessoas tomam com nariz em pé e óculos pseudo-intelectuais, outras com olhos exaustos e dedos trêmulos, olheiras de exaustão, olheiras de cansaço. Odeio olheiras também.  Mas gosto do cheiro do café.
- Diga logo, Louise, não vai me entregar os scripts?
- Meu caro jovem, - começo, feliz que ele pulara as partes longas de adornos  – tome este café amargo e sirva-se da fantasia energética do século. Não seria o ecstasy, você poderia pensar, mas eu diria que não. Vicie-se em cafeína, é mais belo. E bem aceito.
Faço uma pausa para pegar o açúcar enquanto o via engolir comicamente sua impaciência.
- Meu texto está horroroso, Will, e eu detesto os personagens que me deram, quero jogá-los ao mar, mas creio que sequer isso me satisfaria. Pois afinal, eu gosto do mar. Se me concederem a permissão para maltratá-los terminarei tudo hoje, algo em mim está pulsante e creio que meu ritmo estará frenético ao tocar a caneta. O que me diz?
- Maltratá-los? - ele diz, em um suspiro risonho ligeiramente desesperado. Acho que até gosta de mim, pobre, por algum estranho motivo imagino que ele me compreenda mais do que poderia notar. E eu também não sou uma escritora que dá tanto trabalho, só um pouquinho. 
Ergue os olhos, suspira novamente, segura o copo de café e me olha. 
– Faça como quiser. Mas faça bem feito, ou devorarão minha alma. Vou evitar que me pressionem até que me entregue, certo?
Apertamos as mãos em acordo.
Cúmplices. Acho que passei a minha vida aliciando-os às minhas mirabolações.
Maldade ou desespero?
Responder-me-ei quando criar coragem.
Termina o café e se prepara para levantar. 
Mais jovem que eu, ele tem belos olhos escuros, sempre preferi os olhos escuros. Eles sempre pareciam me ver melhor que os claros. Ou talvez eu veja melhor através deles.
- Bom, e então, o que acontece?
- Pois não? - pergunto em pompas.
- Com  a Cinderela.
- Ah, claro. Indignada por seus pés não caberem mais na delicada sandalinha de cristal, a única coisa valiosa que ela tinha,  ela foge, a vende, e se torna uma andarilha, talvez fazendo artesanatos, poderia se juntar a um grupo de ciganos, seria interessante. Sabe, com certeza encontraria um cigano que a faria nunca mais querer voltar para perto daquele príncipe aguado.
- O quê?! – ele me olha surpreso, apesar de já esperar coisas do tipo saírem dos meus lábios sem batom.
- Você realmente acreditava que ela ficaria a vida toda varrendo ou tentando convencer um principezinho mané a gostar dela? Meu amor, até as submissas-feitas-para-serem-donas-de-casa têm seus limites. E uma vez ultrapassados, uh, aí sim a coisa fica interessante.
Sorríamos.

Que bom é saber que mesmo não nascendo livres alguns podem subir em telhados e brincar pelas ruas, despreocupadamente.
Os gatos, digo.


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Sei lá que diabos é isso que escrevi uns tempos atrás. Um dia acordei de bom humor (depois de três dias de trevas), peguei o laptop e escrevi. Paf puf. Nem sei o que acho, mas é legal ler.
 De qualquer forma, resolvi postar por aqui.
Ciao. <3

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